
Vou lhes contar uma história. Seria cômica se não fosse trágica. Meu planeta estava em colapso. Depois descobri que, na verdade, chama-se aquilo de superdesenvolvimento. Talvez isso faça jus à frase “O desenvolvimento é um navio com mais náufragos do que navegantes”. Ou então, a nossa de desenvolvimento de Shangri-la seja a mais equivocada possível. Antes do fim, cientistas desenvolveram uma máquina do tempo. Mais bizarra do que eu, viajante da galáxia, poderia imaginar. Eu digo isso, pois quando absorvi a cultura terráquea vi que seria absurdo e perturbador para qualquer humano, ainda que este fosse perturbado.
O primeiro passo foi construir espelhos inter-dimensionais, isto é, capazes de achar atalhos no tempo/espaço. O segundo passo foi enviar satélites espelhados por pontos estratégicos do espaço sideral. O terceiro foi recrutar falsos durões e bravos doidos para missões suicidas pelo universo. Sinceramente, sinto falta da minha família. Também não gosto da minha armadura de cosmonauta, mas é mais na moda do que toda produção da cultura terráquea.
No início, sentia frio e solidão. O espaço é mudo. Os astros são distantes. Eu só fazia pular de galáxia em galáxia. Até hoje não sei como cheguei ao centro do universo. Pouco importa. O que eu vi lá foi indescritível. Desculpem, não queria frustrar a curiosidade de vocês. É porque é tão singular e alucinante. Ouvi intensidades luminosas. Vi meus ossos se petrificarem. O sentido da minha pulsação sanguínea se inverteu. Ainda consegui ouvir a batida do meu coração. Meu corpo entrou em êxtase e perdi meus sonhos. Eu não sei, mas me disseram que quando me encontraram estava vagando absorto perto da órbita terráquea.
Posso ser de uma sociedade mais desenvolvida. Posso ter viajado uma distância maior do que a de todos os humanos juntos. Contudo, não descobri por que me chamam de marciano. Marte é um planeta tão melancólico. E a configuração química é muito complexa. Hoje? Bem... Arranjei dois amigos esquisitos. Um ciborgue chamado Sopro Eterno e uma mulher chamada Condessa Sozhalet’. Depois de muita discussão e vodca russa decidimos atuar em conjunto. Mas não é nada de herói, nem de vilão. Nem daquilo que cultivar poder à custa da especulação. Me foge o nome à memória. Enfim, sei que ele é o dono do banco.
Descobrimos uma metrópole chamada Mauristadz. Vivemos disfarçados tentando manter contato com alguém. É difícil. Zepelins e Crustáceos robóticos fazem prontidão contra qualquer investida evolucionária. Adultos se afogam no trabalho. Jovens se afogam no ópio. Se bem que, daqui a dez dias haverá uma comemoração. Ouvi dizer no teatro mágico, que eles fundem um humano barro com um boi. Pago pra ver. Pago pra ver também o dia da minha volta. Aqui é meio esquizofrênico. O que em Shangri-la é ódio. Aqui se chama de amor. E a recíproca é verdadeira. Por isso não vou assustar vocês. Guardo meus ódios dentro das minhas concubinas. Aqui as mulheres são mais quentes é verdade. Talvez não seja tão ruim esperar um pouco mais.